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Caso das amigas decapitadas retoma discussão sobre internet


Pais precisam ter atenção e conhecer o mundo virtual dos filhos

05.12.2010 | Atualizado em 05.12.2010 - 09:10
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Sylvio Quadros | Redação CORREIOsylvio.quadros@redebahia.com.br
A estudante Isabela Garcez, 14 anos, costuma viver em dois endereços: um prédio no Costa Azul, onde mora com a mãe, e um lugar onde os amigos invariavelmente sempre sabem onde encontrá-la: a internet. “Passo muito tempo online”, confessa a estudante, que, apesar da pouca idade, já coleciona altos e baixos com as experiências da web.
“Quando tinha 11 anos me apaixonei por uma pessoa que não existia. Gastei mais de R$ 4 mil em telefonemas até descobrir que aquele garoto de Porto Alegre, na verdade, era uma menina interessada em mim”, revela, entre aflita e risonha. 


Isabela se apaixonou por menino na internet: na verdade, era uma menina

Segundo a estudante, a desilusão amorosa rendeu mais do que um sentido de cautela. Virou lições para o futuro. “Demorei um tempo pra balancear essa desconfiança, mas hoje não sou exagerada. Minha melhor amiga (Jéssica Lorca, de 15 anos) é de São Paulo e em dois anos a gente já se viu pessoalmente cinco vezes. É preciso saber em quem confiar”.
Aprendizado 
No jogo do erro e acerto, nem todos têm a mesma sorte de Jéssica e Isabela. Em novembro, a barbaridade que vitimou as adolescentes Janaína Brito Conceição, 16, e Gabriela Alves Nunes, 13, serviu para reacender em Salvador o debate sobre segurança na navegação. Após fugir de casa, as garotas foram torturadas e decapitadas por bandidos no bairro do IAPI.
De acordo com familiares das vítimas, Janaína e Gabriela passavam muito tempo na internet e teriam conhecido os agressores em sites de relacionamento. A 4ª Delegacia de Polícia (São Caetano) e a Delegacia de Homicídios apuram o caso. “Em geral, crianças e adolescentes vivem no contexto da fantasia. Cabe aos pais educá-los para o conhecimento da realidade”, explica a psicóloga e psicopedagoga Cleide Baqueiro.
IdadeA especialista adverte que os usuários nessa faixa etária ainda não desenvolveram a condição cognitiva de reconhecer o bem ou o mal. Frases como “isso nunca vai acontecer comigo”, afirma, são comuns nessa idade.
“Da mesma forma como os pais acompanham as notas no boletim ou os amigos na escola, é preciso conhecer o mundo virtual daquela criança. É um direito deles, no papel de educar e proteger, estar atento à forma como valores sociais são passados para os seus filhos”, adverte a psicóloga, que faz uma ressalva: “Os pais devem reconhecer a importância do limite sem apelar para o pânico ou exageros de dramaticidade”. 

Apesar do número inflado de denúncias contra crimes praticados na rede - somente entre julho e outubro, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos contabiliza 13.952 registros de pornografia infantil -, a falta de infraestrutura e de capacitação é o calcanhar de aquiles da polícia especializada no esforço de conter a atuação dos predadores online. 
“Há um número grande de ocorrências, mas não é possível especificar quais delas dizem respeito aos crimes cometidos na internet”, diz Laura Argolo, titular da Delegacia Especializada para a Repressão de Crimes contra a Criança e o Adolescente.
“O conteúdo da web é bloqueado para os agentes. Só a delegada pode acessar os sites”, diz o escrivão da delegacia. Procurado pelo CORREIO, o delegado Antonio Matos, do Centro de Documentação e Estatística da Polícia Civil, disse que o órgão não aplica esse tipo de recorte.
Após marcar encontro, amigas sumiramA sorte só bate uma vez”. A declaração decidida é da dona de casa Rosimeire Souza Coutinho, de 33 anos. Mãe de Bruna Souza Coutinho, 14 anos, Rosimeire viveu em abril o drama do reaparecimento da filha, que fugiu com  uma colega, a estudante Rafaela Muniz da Costa, 12 anos.
Elas marcaram um encontro com dois desconhecidos na internet. “Minha filha só me disse que foi atrás de aventura, de festa, mas nunca disse com quem saiu. Uma semana depois, as duas aparecem numa praça em Pernambués”, conta a dona de casa a respeito do caso, repleto de versões contraditórias, que ainda intriga a Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente (Dercca).


Em abril, Rafaela e Bruna desapareceram depois de marcar um encontro pela internet
O desaparecimento das garotas foi amplamente noticiada em Salvador. Moradora do bairro de Brotas, Rosimeire garante que aprendeu uma lição: “Estou traumatizada. Hoje a rotina da minha filha é da casa pra escola e da escola pra casa, sem internet. A outra menina morava em Cosme de Farias, mas se mudou. As duas não se falam mais”. Sete meses depois, Rosimeire ainda não sabe com quem a filha se relacionava na internet.
 “Nunca descobri quem eram os rapazes, mas agora nem quero mais saber. Sou neutra no assunto. O que importa é que a internet acabou para minha filha. Bruna está consciente que não deve fazer mais isso”, diz, concluindo: “Aquelas meninas que foram decapitadas não tiveram a mesma sorte”.
Feira: jovem morta depois de encontros  
A jovem Patrícia Guimarães de Andrade, 18 anos, foi morta com quatro tiros em março de 2010 em Feira de Santana. Acusado de praticar o crime, Silas Chagas de Albuquerque, 20 anos, que foi preso no mês passado, confessou que conheceu a garota pela internet. Ele está preso na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Feira. O acusado admitiu que marcou encontros com ela em Salvador e em Feira de Santana. Depois dos encontros, Patrícia apareceu morta em Feira.
Organização denuncia os crimes na rede
Desde dezembro de 2005, quando foi criada, a organização não-governamental SaferNet Brasil tem uma orientação simples: combater crimes de diversas naturezas na internet  e proteger o cidadão através de parcerias com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.
As soluções, contudo, passam por uma via muito mais complexa, como explica o diretor de prevenção Rodrigo Nejm e o advogado Thiago Tavares, representantes da entidade.  “O volume de denúncias que recebemos é muito grande”, afirma Nejm. “Por isso operamos em canal direto com as autoridades para encaminhar essas denúncias”.
Tavares explica que atrasos nas investigações são recorrentes (“Há sites com pornografia infantil denunciados que permanecem há três anos na rede”), mas que estão sendo solucionados através de iniciativas como o projeto Anjo na Rede, que hoje reúne e filtra todas as denúncias encaminhadas à Secretaria Especial de Direitos Humanos (Disque Denúncia), SaferNet e Polícia Federal numa única base de dados. “Hoje não existe mais duplicidade”.
Tavares afirma que de 2 de julho de 2008 a 29 de outubro a entidade encaminhou 4.995 casos de pedofilia no orkut confirmados pelo Google (proprietária do site de relacionamentos) à Procuradoria da República de São Paulo. No mês passado, a ONG registrou uma média superior a 67 denúncias por dia. “O orkut representa 80% do  que recebemos. Lamentavelmente, as autoridades ainda não têm estrutura para dar conta deste número”.

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