sábado, 8 de janeiro de 2011

Fantástico: Carros roubados no Brasil são negociados por armas e dinheiro no Paraguai

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Matéria do fantástico sobre como os carros roubados no Brasil são negociados por armas e dinheiro, cuja operação principal ocorreu no Rio Grande do Sul, comandada pelo Dr. Heliomar Athaydes Franco, Titular da Delegacia de Roubo de Veículos do DEIC/RS. Tive o privilégio de participar da operação, acompanhando a busca e apreensão numa das residências.

A cada dia, mais de mil carros são roubados no país. E você sabe quanto um ladrão ganha pelo seu veículo? O Fantástico descobriu o que acontece com os carros depois do roubo.

O nosso ponto de partida é Porto Alegre. O estacionamento do aeroporto Salgado Filho.
Assim que chega, a equipe da Polícia Civil gaúcha encontra dois carros clonados. O local virou um depósito para os bandidos.

Veja aqui o mapa do roubo de carros no Brasil:


“Normalmente ele vai para lá logo depois do roubo para que ele não seja encontrado em via pública. Ou em poder do indivíduo que roubou o automóvel. Esse veículo sai do sistema de alerta das polícias e fica em segurança para o criminoso, guardado dentro do aeroporto”, explica o delegado Heliomar Franco, da Delegacia de Roubos e Veículos do Rio Grande do Sul. 
Uma caminhonete foi roubada e recebeu placas falsas com numeração igual à de um veículo idêntico a ela. É um clone. Em vez de apreender o veículo, a polícia armou uma estratégia para descobrir qual o destino da caminhonete e instalou um rastreador - um equipamento que envia a localização exata dos veículos via satélite para uma central. 

O rastreador indica que a caminhonete roubada - que estava no aeroporto - se movimentou. Saiu de Porto Alegre e percorreu 1,2 mil quilômetros até Guaíra, na fronteira com o Paraguai.

Pegamos a estrada para refazer o caminho indicado pelo rastreador. O mapa indica que o bandido fez uma parada e dormiu em um hotel. Também aponta que o ladrão passou por pelo menos 12 postos de Polícia Rodoviária até chegar a Guaíra.

Informados pelos investigadores, policiais do Paraná apreenderam a caminhonete. Com ela, a polícia achou documentos falsificados. Para descobrir a fraude, só com equipamento especial.
Se a polícia não tivesse agido para onde teria ido a caminhonete? Provavelmente iria para o Paraguai.

“Esses veículos são roubados no Brasil e revendidos ou trocados por droga ou por dinheiro em espécie”, admite o chefe da investigação Henrique Almeida.

A poucos quilômetros de Guaíra fica a fronteira com a cidade paraguaia de Salto del Guayrá. Descobrimos que para fugir da fiscalização, as quadrilhas atravessam os carros em balsas improvisadas, registradas em fotos. A travessia é feita a partir de portos clandestinos nas margens do lago de Itaipú.

“A partir do momento que o barco chega à margem, logo depois está em solo paraguaio”, diz José Carlos Guglielmetti, da Polícia Civil do Paraná.

“Chegando do outro lado, nós não temos controle para saber para onde esses carros vão. Só sabemos que ele não volta para o Brasil”, garante Almeida.

Em Salto del Guayrá, o repórter Giovani Grizotti entrou na casa de um receptador. Ele diz que paga R$ 400 de propina aos policiais paraguaios para cada carro roubado que entra na cidade.

Receptador: Quando um carro entra aqui, você tem que pagar para a polícia para ele não catar você. tenho que pagar para a polícia.
Grizotti: Quanto é que tem que pagar?
Receptador: Você paga R$ 400.
Grizotti: Por isso tem um monte de carro sem placa por aí?
Receptador: Tem um monte!

Procurada pelo Fantástico, a embaixada do Paraguai disse que o Governo só vai falar sobre a denúncia depois que esta reportagem for ao ar.

Nas ruas de Salto del Guayrá, carros sem placa são comuns. Encontramos também veículos roubados no Brasil com a identificação original. Um automóvel santana foi furtado em Indaiatuba, interior de São Paulo.O Fantástico conseguiu encontrar o verdadeiro dono. Quando ele viu as imagens, ficou surpreso!

“Absurdo. Mesmo estando em outro país. E eu imaginei que já tivesse sido desmanchado. Fosse para um desmanche. Depois de cinco anos, o carro está conservado ainda”, revela o professor João Rubens Júnior.

O Fantástico obteve o ranking das cidades com a maior proporção de furtos e roubos de veículos.
Entre as dez primeiras, seis são do estado de São Paulo.

“Se você pega um mapa de São Paulo, você vai ver uma concentração nos municípios de renda mais elevada. E nas regiões metropolitanas - de São Paulo, Campinas e Santos. Porque existe também nestas áreas muito adensadas e urbanizadas um mercado grande de peças ilegais. Mas São Paulo paga o preço de ser um estado rico”, constata o secretário de Segurança Pública de São Paulo Tulio Kahn.

A campeã é a cidade de Diadema. O empresário Márcio Martins Machado que o diga. “Fui assaltado cinco vezes. Quatro vezes à mão armada e uma vez foi furto. Tem seguradora que não quer nem ouvir meu nome”.

O avanço tecnológico mudou a forma de agir dos ladrões. Em vez de furtar, isto é, levar carros sem que os donos percebam, os bandidos estão ameaçando os motoristas, ou seja, roubando.

“A indústria do crime começou a entender que deveria atacar através do roubo, ou seja, com o condutor junto. Isso porque o motorista desliga o alarme, desbloqueia os rastreadores, uma série de mecanismos contrários àquilo que está acontecendo no veículo que está sendo roubado”, explica Júlio Cesar Rosa, da Confederação Nacional das Seguradoras.

Com um rastreador, é possível localizar o carro e até ouvir o que está sendo conversado dentro dele até pelo celular! Isso é fundamental em um caso de sequestro. Veja no vídeo o teste que fizemos.

Mas os bandidos arranjaram um jeito de enganar esse mecanismo de proteção dos motoristas. Na internet e em lojas do Paraguai, encontramos um equipamento - um bloqueador de GPS. Com ele, o sinal do rastreador é cortado e fica impossível descobrir onde o automóvel foi parar.

Fantástico: Ele vende bastante?
Vendedora: Vende.

Uma ameaça a mais para as vítimas. Um advogado perdeu o irmão em um roubo de carro em 2008. Há três meses, foi ele quem ficou na mira da arma dos ladrões.“Houve menção de levar a mim junto, eu resisti a isso. Ali eu estava entre a vida e a morte”, lembra.

No começo da reportagem, você viu como uma caminhonete roubada no Rio Grande do Sul foi parar na fronteira do Brasil com o Paraguai. Agora, a equipe do Fantástico vai seguir outra pista no país vizinho. Nosso destino é Ciudad del Este.

Cruzamos a Ponte da Amizade sem qualquer abordagem. Segundo a Receita Federal, apreensões são feitas por denúncia ou amostragem e a fiscalização está voltada para contrabando.

Do outro lado, encontramos um homem. Perguntamos se ele comprava carro roubado.
E ele nos leva ao chefe da quadrilha.

Homem: É esse carro que tu quer vender?
Grizotti: É. Vocês têm alguma coisa na troca?
Homem: Dinheiro na mão.

O repórter cinematográfico Marcelo Táil encontra o homem que se identifica como Mario. O paraguaio diz que está disposto a comprar nosso carro. E não é só dinheiro que ele tem para oferecer.

Fantástico: Me explica uma coisa, como é que é o negócio?
Homem: Se você quiser dinheiro, tem dinheiro, tem arma, você consegue trocar.
Fantástico: Na troca do carro?
Homem: É. Na troca do carro.

A oferta é grande e ele garante que entrega as armas direto no Brasil.

Fantástico: Que armas que tem?
Homem: Ponto quarenta, nove milímetros.
Fantástico: Vale uma ponto quarenta?
Homem: R$ 1800.
Fantástico: E fuzil?
Homem: Tem ponto trinta. Tem M16, metralhadora. Tem tudo!
Fantástico: E como é que é para passar com isso? Ou entrega lá do lado de lá?
Homem: Entrega para você se você quer, por rio, à noite, de madrugada. A gente entrega pra você lá
Fantástico: Entrega a arma?
Homem: Sim.

A operação da polícia que nós acompanhamos começou em maio. O objetivo: prender os brasileiros que levam os carros até a fronteira. Por isso, os policiais instalaram o rastreador na caminhonete que foi levada para a cidade paranaense de Guaíra.A polícia poderia ter apreendido o veículo no aeroporto, em Porto Alegre, mas deixou que fosse movimentado como estratégia para pegar a quadrilha.

Nove pessoas foram presas. A maioria esta semana. Uma delas é uma advogada. Seguimos a mulher antes da prisão. Ela circulava em um automóvel clonado - com placas frias e documento falso. Durante a operação, Dora Luiza Vargas não reagiu à ordem de prisão. Ela foi presa em flagrante por receptação.

Criminoso vende placas e documentos para esquentar carros roubados

O carro estava pertinho da verdadeira dona. Acompanhamos o momento em que a administradora Maria Dione Inocente o reencontrou, no pátio da polícia. Ela foi assaltada no dia 13 de agosto. “Que saudade do meu carrinho! Levaram meus casacos, tudo o que estava dentro dele. Não acredito que meu carro estava com uma advogada. Estou com palpitação, estou com meu coração pulando de indignação, de falta de respeito. Não sei o que dizer”.

Mesmo que ela tivesse visto o carro na rua, não ia saber que era o seu. A placa foi clonada de um veículo idêntico que está à venda em Santa Catarina. Clonar um carro é fácil. No coração de São Paulo, a placa diz que um homem compra ouro. Mas a joia que ele vende é outra - material para bandido.

Perguntamos se ele negocia placas e o documento popularmente conhecido como DUT, para esquentar automóveis roubados.

Grizotti: Quanto que ele cobraria para fazer o DUT?
Homem: R$ 400 que ele cobra para fazer o DUT.
Grizotti: Mas o papel é bom?
Outro homem: É original.

Agora, ele apresenta o colega José de Abreu, o chefe do esquema.

José de Abreu: Só trabalho com original.
Grizotti: Eu te compro, só que vou precisar de duas placas também. Eu vou precisar do par.
José de Abreu: Duas placas sai R$ 300.
Grizotti: Mas o papel é quente de dentro do Detran?
José de Abreu: Papel é original. Você vê o brasão, vê tudo. Sou honesto, aqui não tem esse negócio de safadagem.

A entrega é marcada para o dia seguinte. Ao meio dia, o repórter Giovani Grizotti vai buscar a encomenda. Na chegada, reencontra o intermediário: Noel.

Noel: Já está tudo prontinho já. É só você pegar e levar já. Ficou bonito para caramba, ele me mostrou tudo.
Grizotti: É documento quente mesmo?
Homem: Pode confiar. Do Zé de Abreu não tem nada falso, tudo que ele faz é original.

Ele entrega as placas e remete o documento pelo correio. Dias depois, a encomenda chega. O intermediário assina como remetente. O endereço, é claro, é Praça da Sé.

O que vamos revelar agora é um escândalo ainda maior. O perito de documentos Oto Rodrigues garante. “Esse formulário com certeza ele é verdadeiro”.

Verdadeiro e desviado do Detran de São Paulo. “Uma técnica de impressão muito sofisticada que o falsário não tem acesso. A rasura se resumiu apenas à identificação do estado e não aos dados do veículo que estão no documento. Isso significa que esse formulário foi furtado em branco de algum local e depois foi expedido fraudulentamente, com a substituição da sigla de SP pela do RS”, explica Rodrigues.

O suficiente para enganar os policiais numa blitz. “Sem dúvida nenhuma. Um formulário desse em branco vale o quanto pesa, porque o estelionatário coloca o que ele quer”, avisa o perito.

A Secretaria de Segurança de São Paulo, responsável pelo Detran, determinou abertura de investigação.Entregamos as placas e o documento falso para a Polícia Civil de São Paulo.

“O que eu posso assegurar é providência imediata, uma vez que tomamos conhecimento da obtenção desse material de origem criminosa, ilícita, vamos instaurar inquérito policial”, avisa o delegado José Mariano de Araujo Filho, da delegacia de Furto e Roubo de veículos de São Paulo.

Fomos procurar também o homem que vendeu o documento e as placas. Desta vez, sem câmera escondida. José de Abreu estava na Praça da Sé, como de costume. Demos a chance para ele se defender, mas ele preferiu fugir. 


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