Dentre os sites que sofreram essas ações constam o site da Receita Federal, IBGE, Presidência da República, Universidade de Brasília, Senado, Agência Brasileira de Inteligência, dentre outros.
Para explicar sobre essas questões conversamos com o delegado de polícia Higor Vinicius Nogueira Jorge, que é professor da Academia de Polícia e especialista na investigação de crimes cibernéticos.
Para iniciar, em razão dos recentes ataques praticados contra sites do governo muitos têm afirmado que esses sites eram muito vulneráveis? Qual a sua opinião?
Eu acho complicado julgar a intensidade das vulnerabilidades existentes nestes sites, até mesmo por que não tive acesso a informações sobre cada um deles, porém posso dizer que é muito difícil falar em sites ou servidores absolutamente seguros e sem falhas. Todas as pessoas que utilizam a internet devem ter consciência das vulnerabilidades e riscos que envolvem o acesso a ela.
O que é ataque DDoS?
O ataque DDoS ou de negação de serviço é uma modalidade de cyberataque que se caracteriza pelo envio simultâneo de requisições de serviços para um determinado recurso de um servidor, por exemplo, um site. Em razão de não suportar essa quantidade de requisições, o recurso torna-se indisponível. No caso do site da presidência da república ocorreu esse tipo de ataque.
Cabe esclarecer para que essa ação criminosa consiga causar transtornos para a vítima, o cybercriminoso contamina diversos computadores para que eles fiquem a disposição para esse tipo de ataque e no momento que o ataque for iniciado, todos os computadores acessam simultaneamente o site.
Então, as pessoas que tornaram sites do governo indisponíveis cometem algum tipo de crime?
Deve-se avaliar cada caso. Se o criminoso atenta contra a segurança ou o funcionamento de serviço de utilidade pública, como por exemplo, o site da Receita Federal, cujo conteúdo é de utilidade pública. A pena para esse crime varia de 1 a 5 anos de reclusão e multa.
Foi divulgado que alguns sites sofreram o chamado deface, dentre eles o site do IBGE, o que significa isso? Existe crime para a pessoa que realiza deface?
A palavra deface é utilizada para caracterizar a ação de desfigurar sites ou perfis de redes sociais. Os defacers são semelhantes a pichadores, mas suas atividades não são realizadas em muros e sim em sites, blogs e outros meios. Se um indivíduo desfigura um site e produz um dano contra ele, pode ser enquadrado no Código Penal e receber uma pena de detenção que varia entre 1 e 6 meses ou multa.
Como os governos federal, estadual e municipal, órgãos e entidades do País podem se prevenir?
A principal prevenção envolve a contratação de profissionais competentes e com experiência em segurança cibernética, além da criação e manutenção de uma infra-estrutura preparada para eventuais cyberataques. É impotante que os órgãos públicos invistam maciçamente na segurança dos seus recursos tecnológicos. Além disso, considero imprescindível um trabalho de conscientização dos usuários de computadores para que adotem certos procedimentos direcionados a utilização da internet com segurança e responsabilidade. Não basta investir em tecnologia e segurança da informação se aqueles que fizerem uso destes recursos não estão preparados para isso.
O cidadão pode sofrer que tipo de problemas devido ao ataque aos sites oficiais?
O cidadão comum deve saber que não só os sites do governo possuem vulnerabilidade e podem sofrer ataques de cybercriminosos, mas também qualquer pessoa pode ter problemas dessa natureza. Desde invasões em sites pessoais, acesso ao conteúdo dos seus e-mails ou até mesmo fraudes em suas contas bancárias ou golpes praticados por computador.
A Polícia Civil dispõe de ferramentas para coibir essa prática?
Sim, tanto a Polícia Civil, quanto a Polícia Federal que, de acordo com a Constituição Federal, possuem competência de promoverem a investigação criminal possuem diversos recursos para a identificação dos autores destes crimes. Nos casos dos crimes cometidos por intermédio de computadores existem certas dificuldades para a investigação, mas a utilização dos métodos de investigação criminal tradicional em conjunto com recursos da inteligência policial e da tecnologia e segurança da informação tornam a investigação mais eficaz. Apesar disso dois grandes problemas são relacionados com a excessiva burocracia para obter informações sigilosas sobre os criminosos, como dados sobre o sigilo telemático ou dados cadastrais e também o fato dos provedores de acesso e conteúdo não serem obrigados guardar os logs dos seus usuários por determinado período. Em relação a essa última questão a Lei Azeredo que se encontra tramitando na Câmara Federal poderia atenuar o problema, tendo em vista que apresenta um prazo mínimo para a guarda desses logs, além de prever novas modalidades de crimes cibernéticos.
Que procedimentos as pessoas devem ter em relação a compras pela internet e uso do internet banking?
Antes do usuário realizar uma compra pela internet ele deve pesquisar sobre o histórico da loja, a situação do CNPJ dela perante a Receita Federal, bem como eventuais reclamações contra a loja no Procon e em sites aonde as vítimas publiquem reclamações, como o site www.reclameaqui.com.br. Procure comprar em lojas reconhecidas ou que exista uma loja física também. Muito cuidado com empresas que fornecem apenas celulares para atender os clientes. Não se esqueça de suspeitar de preços muito inferiores aos preços de mercado. Os criminosos utilizam os preços baixos para chamar a atenção da vítima.
No que diz respeito a utilização de internet banking a vítima deve sempre digitar todo o endereço, não deve acreditar em e-mails que recebe tendo como origem esses bancos. Em muitos casos nestes e-mails existem links que levam a vítima a sites falsos muito semelhantes aos legítimos. Também esses e-mails podem conter como anexos arquivos maliciosos que não devem ser copiados no computador, nem executados.
Sempre que realizar alguma transação bancária pela internet o usuário deve procurar utilizar um computador seguro, preferencialmente o seu computador pessoal e evitar inserir seus dados bancários em computadores de lan houses ou que utilizam internet sem fio em locais públicos, como aeroportos e cybercafés, que pode ser monitorados.
O que o cidadão que possui internet deve fazer para não se tornar alvo da ação de hackers?
O usuário de computadores deve tomar muito cuidado com os links que ele acessa e os sites que ele visita. É necessário evitar sites de procedência duvidosa, como os sites com pornografia, programas piratas ou que forneçam músicas e vídeos para download.
Também para evitar infecções, invasões ou danos é muito importante manter instalado em seu computador um bom antivírus para evitar, detectar e remover arquivos maliciosos e que também possua mecanismos de firewall (programa que evita invasão em um computador, cria um filtro entre as comunicações de uma rede com outra) e antispyware (programa para detectar e remover trojans (cavalos de tróia) que monitorem as atividades do usuário de computador). Algumas versões pagas de antivírus possuem todas essas funcionalidades, se o antivírus for gratuito é recomendável que instale também programas gratuitos de firewall e antispyware. É importante que todos os programas do computador sejam atualizados automaticamente, incluindo o sistema operacional e navegador, tendo em vista que as atualizações são feitas para aperfeiçoar e corrigir suas vulnerabilidades.